Ensaio sobre a ideia

Fique por Dentro

Eram seis os atletas posicionados na pista, esperando um estampido seco, que seria proferido pela arma do juiz de prova. Pés no chão para dar embalo, concentrados como um ator antes de entrar no palco, eles apenas miravam o alvo para fazer o melhor. Fazendo isso, vários deles conseguiam ignorar os gritos, oriundos de quase trinta mil gargantas embriagadas de cerveja barata, uma cerveja que podia ser comprada por centavos com vendedores ambulantes, que ficavam passando, equilibrando suas caixas de madeira sobre a cabeça, entregando as garrafas a quem levantasse a mão. O juiz olhou seu relógio de pulso, invenção prodigiosa de Santos Dumont, mas que infelizmente nunca lhe rendeu nenhum centavo, olhou para o alto, tomando cuidado para não acertar nenhum pássaro desavisado, fato muito comum naquele Rio de Janeiro de 1950, e com seu dedo indicador puxou o gatilho.

Mal a fumaça deixou o cano do revólver, começaram a correr. Se não fossem os urros, incentivando os atletas, provavelmente daria para ouvir dez pés, cinco de cada vez, batendo contra o chão, uma produção sonora muito parecida com uma cavalaria rumando para a batalha. Só dois pés não fizeram questão de entrar naquela luta. Eram os pés do corredor que corria na última raia. Eles estavam apontados para o céu, mirando os deuses. Com as mãos, ele rumava para a linha de chegada, plantando bananeira, mandando banana para as regras e a pura e simples ideia de que o melhor era ser o mais rápido. Enquanto ele dava, vagarosamente, seus passos manuais, a multidão nas arquibancadas ficava surpresa. O que ele está fazendo? Perguntou uma senhora nos camarotes. Meu Deus, é magnífico, disse um jornalista, de folga com os filhos, sentado junto aos outros espectadores. Foi uma ação tão impactante que, quando o mais rápido dos atletas, aquele com um uniforme verde, que corria na raia do meio, cruzou a linha de chegada, marcando um novo recorde para a prova, meio segundo de vantagem para o segundo colocado, ninguém aplaudiu, ninguém nem mesmo notou. Todos os trinta mil olhares tinham apenas um alvo: aquele homem de cabeça para baixo que, ao mesmo tempo em que desafiava a gravidade, fazia com que o conceito deles de vitória também virasse de cabeça para baixo. Em dois minutos e meio, ele completou a prova.

Mesmo com o apoio total da plateia, que lhe chamava de campeão, o resultado do cronômetro dizia o oposto, que ele tinha sido o pior, marcando um tempo completamente ultrajante comparado aos doze segundos do recordista. Mas tudo bem, aquele atleta não ligava. Primeiro porque ele não se considerava um atleta, considerava – se um criativo. Segundo, porque sua preocupação era diferente de cumprir apenas um prazo. Sua principal meta era outra, fazer aqueles cem metros do jeito que ele decidiu fazer, livre de amarras e ideias já realizadas por outros. O fato de não subir ao pódio não mudou nada. O que realmente importou foi o fato de que, nos meses seguintes, só se falava nisso. Hoje, se você perguntar àquela multidão embriagada de cerveja barata o que eles lembram dos jogos olímpicos universitários de publicidade, realizados no Maracanã, em 1950, logo depois da Copa do Mundo, em que o Brasil fracassou dentro de casa, eles não vão lembrar quem foi o primeiro lugar, muito menos que foi quebrado um recorde naquele dia. Eles só vão lembrar de uma coisa: que um maluco atravessou diante de todos plantando bananeira.

Sem Comentarios »
21 de outubro de 2009
Fabio Duarte
Por Fabio Duarte

Comente